Em sua casa, numa madrugada como outra qualquer, o médico norte-americano John Langell foi chamado para uma emergência. O quarto estava escuro e, para não acordar a esposa, ele usou a lanterna do seu iPhone para encontrar a roupa e se vestir. E ficou admirado com a luminosidade do aparelho, tão poderosa quanto à de um laparoscópio. Langell não é um médico qualquer. Ele dirige o Centro para Inovação Médica da Universidade de Utah.

No dia seguinte à emergência, ele descreveu a cena aos seus alunos – que estavam à procura de um projeto inovador – e os instigou a desenvolverem um laparoscópio de baixo custo usando partes de celulares. A ideia era tornar as cirurgias minimamente invasivas e, mais importante, acessíveis aos habitantes das regiões mais pobres do globo; talvez você não saiba, mas quase 70% da população mundial, cerca de 5 bilhões de pessoas, simplesmente não têm acesso a cuidados cirúrgicos seguros e baratos, segundo recente reportagem do The New York Times.

Enquanto um laparoscópio comum custa mais de US$ 20 mil, o instrumento criado pela equipe de Langell, o xenoscópio, será lançado no mercado por módicos US$ 85. Isso, quando, e se a FDA – a agência que controla alimentos, remédios e aparelhos médicos dos Estados Unidos – aprovar. Em relação à União Europeia o desafio é similar: para definir o xenoscópio como um dispositivo equivalente à tecnologia existente, será necessária uma série extensa e complexa de testes clínicos.

O invento dispensa o uso de computadores com grande capacidade de processamento de imagem; os cirurgiões podem assistir às imagens produzidas durante o procedimento em um laptop comum ou – acredite – na tela de um smartphone. Detalhe: a bateria do celular fornece toda a energia de que o xenoscópio precisa por até oito horas. Com isso, pequenas cirurgias poderão ser feitas mesmo fora de um hospital e sem uma fonte estável de eletricidade. Não por acaso, depois de testes bem-sucedidos na Índia (para remoção das trompas de uma mulher) e Mongólia, até a Nasa demonstrou interesse pela nova tecnologia.

Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.