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Estudos indicam que os jovens, e também os não tão jovens, leem cada vez menos – e esse “menos” teria a ver tanto com o tempo médio dedicado à leitura quanto ao tamanho dos textos. Os responsáveis por essa inflexão educacional têm nome e sobrenome: celular e redes sociais. O mundo teria se adaptado à parcimoniosa e telegráfica linguagem do Twitter. Mas há quem duvide, contudo. É o caso do Pew Research Center, de Washington: a julgar pelo resultado de sua mais recente pesquisa sobre o tema, o monstro não é tão feio como se tem anunciado.

O Pew analisou o tempo que os usuários dedicam à leitura em dispositivos móveis de artigos considerados curtos, com entre 101 e 999 palavras, e artigos longos, com 1.000 palavras ou mais. Na amostragem foram computados quase 75 mil artigos publicados por 30 organizações de notícias norte-americanas durante o período de seis meses. Outra restrição importante: todos os textos estudados foram lidos na internet móvel (em navegadores como Safari e Chrome), e não através de aplicativos. “A maioria dos aplicativos são projetados para oferecer uma experiência de leitura mais agradável, e isso poderia estender ainda mais o tempo que as pessoas estão dispostas a despender com histórias mais longas”, afirma Amy Mitchell, diretora de Pesquisa em Jornalismo e principal autora do relatório do Pew.

Vamos aos resultados. Nos Estados Unidos, os usuários de smartphones passam mais tempo lendo histórias mais longas do que mais curtas: 45 segundos para artigos entre 101 e 250 palavras contra 116 segundos para textos com entre 1.000 e 4.999 palavras, e 270 segundos para textos com mais de 5 mil palavras. E não importa como os leitores “chegam” nas páginas, se a partir de um site externo, via Facebook ou qualquer outro meio – o “envolvimento” com a história, maior ou menor, é sólido e recorrente.

Outra comparação interessante, agora entre o Facebook e o Twitter. O primeiro obteve 9 milhões de “interações completas” com artigos longos contra 2 milhões do microblog. A média de tempo dos usuários, porém, é favorável ao Twitter: 2 minutos e 13 segundos contra um minuto e 47 segundos do Facebook. O padrão se repete em relação aos textos curtos: foram 32 milhões de interações completas e 51 segundos em média de leitura para a rede social criada por Mark Zuckerberg contra 5 milhões de interações completas e 58 segundos em média de leitura para o Twitter.

Dois últimos dados, ambos preocupantes. Primeiro: os artigos têm uma vida útil muito curta; se o usuário não ler o artigo naquele instante, dificilmente voltará àquele site. Segundo: a preferência de leitura, de acordo com o relatório do Pew, não poderia ser pior – e mais previsível. A pauta “Crimes” lidera tanto nas histórias curtas quanto nas longas, seguida de “Defense” (em tradução livre, “Segurança”) e “Entretenimento e Lifestyle”. O monstro pode não ser tão feio quanto dizem. Mas ele existe.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.

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