Por este blog – mas também por “dever de ofício” – leio meia-dúzia de jornais impressos brasileiros, quatro revistas semanais e uma quinzenal, além das edições digitais de Financial Times, The New York Times e The Washington Post. Leio na transversal, mas leio. As publicações estrangeiras ajudam porque, paralelamente à visão diferenciada dos fatos, apresentam-nos em primeiríssima mão. Foi o caso da matéria “Google now knows when its users go to the store and buy stuff (algo como “Google agora sabe quando seus usuários vão para a loja e compram coisas”), postada na última terça-feira, dia 23, pelo Post. Assustador.

Um resumo da história: a (empresa) Google começou a usar bilhões de registros de transações de cartões de crédito para provar que seus anúncios on-line estão levando seus usuários a fazer compras – mesmo quando elas acontecem off-line em “lojas de tijolos e argamassa”. Para impulsionar seu gigantesco conjunto de anúncios multimilionários, a Google já analisa a navegação na internet, o histórico de pesquisas e as localizações geográficas dos usuários usando dados de seus aplicativos mais populares: YouTube, Gmail, Google Maps e Google Play Store. Todas essas informações estão vinculadas às identidades reais dos usuários quando eles fazem login nos serviços da empresa.

Essa capacidade de rastreamento de localização permitiu que a Google enviasse relatórios para algumas cadeias varejistas, como Home Depot, Express, Nissan e Sephora, dizendo-lhes, por exemplo, se as pessoas que viram um anúncio na internet de um cortador de grama visitaram mais tarde uma loja da Home Depot para comprar o produto. Com tal avanço tecnológico é possível determinar quantas vendas foram geradas a partir de campanhas de anúncios digitais. Simples – e precisamente – assim.

Contudo, o anúncio ampliou a já extensa legião de críticos das regras de privacidade, de como a empresa utiliza as informações pessoais de seus usuários – questão especialmente sensível. Como Marc Rotenberg, diretor executivo do Electronic Privacy Information Center. Para ele, as agências reguladoras e o Congresso norte-americanos devem exigir respostas claras sobre como a Google e outras empresas de tecnologia estão coletando e usando os dados dos usuários. Do seu lado, a empresa – adivinhe! – se recusou a detalhar como o novo sistema funciona, mas garante que tomou todas as medidas necessárias para proteger as informações pessoais. Você acredita?

Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.