A cada dia, fica mais evidente o que muita gente já sabia, ou pelo menos desconfiava: o Facebook sabe muito mais sobre você do que poderia imaginar nossa vã filosofia. Não se trata mais de classificar os usuários como “fãs de futebol”, “detratores de Trump” ou “adoradores de gatinhos”. A gigantesca rede social já conhece do perfil étnico às preferências de consumo de cada indivíduo, se fulana amamenta em público e quanto ganha cicrano por ano. Foi o que descobriu a ProPublica, uma instituição independente, com base em Nova York, que produz jornalismo investigativo de interesse público.

Mas se você nunca revelou na sua Linha do Tempo quanto ganha nem postou uma foto amamentando um bebê, como o Facebook descobre dados tão sensíveis? De acordo com a ProPublica, é pagando a diversas fontes, especialmente bancos de dados e empresas especializadas em informações sigilosas. Eles têm tudo, ou quase, sobre as vidas off-line dos usuários, e fornecem dossiês pessoais detalhados e completos com a lista de lojas e restaurantes frequentados, assinaturas de revistas e jornais – impressos e on-line –, cartões de crédito em uso, local de residência, e por aí vai.

A ProPublica descobriu que, através de seus poderosos algoritmos e nada menos que 52 mil tipos de atributos, o Facebook categoriza as pessoas em grupos – alguns “inofensivos”, como o de pessoas que gostam de comida do sul dos Estados Unidos, mas, outros, bem mais críticos, como “afinidade étnica”. Com isso, os anunciantes podem segmentar seus produtos e serviços com maior precisão ou excluir anúncios de serem exibidos a um grupo específico.

Os porta-vozes do Facebook, é claro, negam tudo. Afirmam que respeitam a privacidade de seus usuários e que a política de uso é pública e transparente. Por via das dúvidas, a repórter americana Julia Angwin, da própria ProPublica, experimentou tirar seu nome do maior número possível de bancos de dados. Dos 92 que identificou e contatou, 65 deles exigiram a apresentação de algum tipo de identificação, como uma carteira de motorista. Resultado: Angwin não conseguiu remover seus dados da maioria das fontes.

Imaginem o que o Google já não sabe.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.