Está lá, no finalzinho do “Termo de Uso”, em letras miúdas: “(…) Você está de acordo que o uso do aplicativo e o ato de jogar ‘são riscos próprios’, e é sua responsabilidade manter apólices de seguro, salubridade, perigo, lesão corporal, médico, vida e outras, da forma que julgar razoavelmente necessário para quaisquer lesões que possam incorrer ao usar os Serviços (…)”. O aplicativo, no caso, é o Pokémon Go, o lançamento mais bem-sucedido dos últimos anos, com mais de 100 milhões de downloads no mundo inteiro – incluindo, há dez dias, o Brasil. Sucesso absoluto? Há controvérsias.

Para quem não sabe, o jogo consiste em caçar e capturar 129 monstrinhos espalhados por todos os lugares através de uma tecnologia que mistura geolocalização, realidade aumentada e projeção de imagens virtuais sobre cenários reais. E são “todos os lugares” mesmo: de escritórios do Pentágono, nos Estados Unidos, ao museu do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia; das linhas de alta tensão das subestações de energia elétrica de São Paulo à malha ferroviária de Minas Gerais. Tragédia anunciada, Pokémon Go tem produzido muita polêmica, além de algumas fatalidades.

Adolescentes, mas não só eles, se aventuram, sem autorização, em locais de acesso restrito, como instalações militares ou propriedades privadas monitoradas por sistemas de segurança. Sem falar no aumento – já identificado pela polícia de cidades como Londres – do número de celulares roubados, resultado da distração dos jogadores. No e-mail e único canal de contato do mundo exterior com a Niantic, desenvolvedora do aplicativo, não param de chegar reclamações enfurecidas e solicitações de remoção do “mapa” do jogo da localização geográfica de endereços residenciais, de empresas e inúmeras áreas de risco. Protegida pelo “Termo de Uso”, a Niantic ignora tais pedidos.

Para evitar acidentes em suas linhas, pátios, ramais e terminais, algumas ferrovias de carga brasileiras preferiram não contar com o bom senso dos jogadores, flagrados no meio dos trilhos caçando monstrinhos. “Seu smartphone tem muitas funcionalidades, mas nenhuma delas pode parar um trem. (…) Não jogue com a sua vida”, alerta o material de divulgação (e conscientização) da MRS (você pode baixar o material original neste link). Nos seus perfis de redes sociais, a VLI é ainda mais explícita: “Atenção, mestres Pokémon: fiquem longe dos trilhos”. E ficam as dicas.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.