Sim, sua privacidade foi para a Cucuia quando você decidiu entrar em redes sociais como Twitter, Facebook e Instagram. Mas, como se sabe, nada é tão ruim que não possa piorar. Muito em breve suas preferências de navegação também estarão à disposição de qualquer um: programas infantis a que seus filhos ou netos assistem, documentários do Discovery Channel e vídeos pornôs hardcore, dados sobre a sua saúde, informações financeiras e locais que mais frequenta. Passou pela sua banda larga, em breve será público. Legalmente público.

É o que pretende impor o Senado dos Estados Unidos. Semana passada, aquela Câmara do Congresso norte-americano votou a favor de novas regras que – se passarem também pela Câmara dos Representantes (dos Deputados) – revogarão as determinações legais de privacidade ora em vigor; elas foram estabelecidas no Governo Obama pela Federal Communications Comission (FCC), a agência reguladora de telecomunicações do país.

A votação foi apertada: 50 votos republicanos a favor, 48 votos democratas contra e duas abstenções (republicanas). Além do time no Congresso de Donald Trump, que detém maioria na Casa, conspiram contra a privacidade alheia grandes operadoras como Turner Broadcasting System, Comcast Corp., Disney Media Networks e Fox Networks Group, reunidas pela Internet and Television Association. Pelas regras antigas, mas ainda em vigor, as operadoras precisam da permissão individual de seus clientes para vender e/ou compartilhar seus dados de navegação.

À agência de notícias Reuters, os republicanos (em nome das operadoras) justificaram a mudança como forma de eliminar – na realidade, igualar – as vantagens das gigantes da internet. Como se sabe e foi alertado algumas vezes neste blog, Google e Facebook, para citar apenas as duas maiores empresas, têm permissão legal para usar comercialmente os dados de navegação de seus usuários. Com isso, estariam dominando a publicidade digital. A guerra, está muito claro, e como sempre, é por dinheiro, e não por valores e ética. Adivinhe quem perde.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.