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“Um ambiente para conversar e se sentir bem, com um senso de comunidade: um terceiro lugar, intermediário, entre o seu trabalho e a sua casa”. Essa é a tradução livre de um dos slogans da Starbucks, a maior rede de cafeterias do mundo, aberta em 1971 na cidade de Seattle, costa oeste dos Estados Unidos, e hoje com mais de 15 mil lojas espalhadas por 50 países, incluindo o Brasil. Como todos vocês que já experimentaram sabem bem, não é preciso consumir nada, nem um cafezinho, para sentar-se numa das poltronas de couro e ler um livro, reunir-se com um cliente de trabalho ou simplesmente aproveitar o Wi-Fi para baixar e-mail e navegar na internet. Pois é, tem gente que abusa. Lá e cá.

Especialmente nos Estados Unidos, unidades da Starbucks, como as localizadas no downtown de algumas metrópoles, se tornaram abrigos para pessoas sem-teto, que utilizamos banheiros e dormem nas poltronas; além disso, aumentou significativamente o número de não clientes que entram nas lojas para carregar dispositivos eletrônicos e acessar a internet pelo Wi-Fi. Em parte, esse tipo de “visita” é explicado pelo número crescente de pedidos de emprego que, mesmo em níveis mais básicos, exigem cadastramento via aplicativos on-line. Para os norte-americanos de baixa renda, o acesso sem fio é vital.

Quem não está gostando desse 0-800 é o fiel, ordeiro e quase sempre abonado cliente da rede, desconfortável com a presença de moradores de rua, de um lado, e com a navegação, digamos, sem filtros, de outro: no interior das cafeterias, são cada vez mais comuns os relatos de crianças que se deparam com clientes adultos assistindo a vídeos pornográficos. E vice-versa (adultos que flagram crianças). Para evitar que situações embaraçosas se multipliquem, a Starbucks, a exemplo das redes Subway, McDonald’s e Chick-fil-A, começou a bloquear o acesso via Wi-Fi ao chamado “conteúdo não-intencional”. Ou – sem rodeios – streaming de sexo explícito.

“Temos o direito de interromper qualquer comportamento que interfira com a experiência do cliente em nossas lojas, incluindo o conteúdo acessado através de nosso Wi-Fi”, justificou em nota à CNN um porta-voz da rede de cafeterias. Na realidade, a nova política de uso atende às pressões da Enough is Enough, organização não governamental que luta “por uma internet segura para as famílias e crianças”. Melhor assim: na Coreia do Norte, quem é pego assistindo a um filme pornô recebe o mesmo tratamento de um preso político – e está sujeito à pena de morte.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.

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