Não, não mudei o público-alvo do blog, como a minha mulher estava suspeitando. A história desse senhorzinho aí das fotos é que não poderia passar batida. Ela viralizou na rede social chinesa Weibo e, no Ocidente, mais recentemente, depois da matéria on-line do The New York Times. Mas nem todos a conhecem. “Wang Deshun, muito prazer. Tenho 80 anos. Sou top model.”

Sim, ele é top model, e modelo, em particular, de como um homem deve envelhecer. Deshun começou tarde. Ator de teatro e cinema, participou de filmes como “O Reino Proibido”, de Rob Minkoff, estrelado por Jackie Chan, mas ninguém se lembra dele no papel secundário do Imperador Jade. Nem eu – crítico de cinema – lembrava. O fato é que a fama só veio mesmo depois de desfilar na passarela da Semana de Moda da China. Sem camisa. Instantaneamente, como tudo que cai nas graças da internet, Deshun transformou-se no “avô mais sexy” [suas fãs preferem “gostoso”] do Oriente [suas fãs preferem “do mundo”].

Na entrevista ao NYT, o top model chinês revela que começou tudo tarde: aprender inglês, aos 44; entrou pela primeira vez numa academia aos 50; cavalgar, aprendeu aos 65; andar de moto, aos 78. Sua estreia em desfiles foi no ano passado – e a polêmica em torno de sua idade era inevitável, especialmente num país em que as mulheres se aposentam aos 50 (na iniciativa privada) e 55 anos (funcionárias públicas) e os homens, quase sempre, aos 60. “Alguém com 50 anos pode ser chamado de ‘yeye’ ou ‘nainai’ (vovô ou vovó, em chinês), independentemente de ter filhos ou não. Uma forma de saber se você está velho é se perguntar: ‘Você se arriscaria a fazer algo que nunca fez antes?’ A natureza determina a idade, mas você determina o seu estado de espírito”, contou ele ao jornalão norte-americano.

Em vídeos como este, com legendas em inglês, Deshun ensina que suas manhãs são os espaços de tempo ideais para aprender, lendo livros ou se atualizando na internet. À tarde, das 15 às 18 horas, faz ginástica. Natação, todos os dias. Come o que quer, mas diminuiu o volume de álcool “se comparado ao de 10, 20 anos atrás”. Família? Ele tem dois filhos e uma neta de dois anos. E – sorry, interessadas… – é casado há 48 anos.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.