Não esqueço aquela placa a caminho de Galway, na Irlanda: Tuam. Nome diferente… Que tipo de cidade seria essa? – questionei à minha mulher. Entramos muito rapidamente no Google e descobrimos que a localidade existia desde a Era do Bronze, foi importante nos séculos 11 e 12 e, como uma típica cidade do interior europeu, sua população não chegava aos 10 mil habitantes. “Desviar?”. Nem pensar. O nome Tuam só voltou à minha memória RAM nesta semana ao folhear a versão digital da revista The Economist.

“Próximo à avenida principal de Tuam, num conjunto de edificações baixas, trabalham cerca de 400 engenheiros de software, pesquisadores e especialistas em inteligência artificial provenientes de 35 países. No terreno ao lado, uma planta industrial emprega 650 pessoas, produzindo placas de circuito, sensores e câmeras de visão “surround” (que cobrem os quatro lados de carros autônomos).”Pensei imediatamente no enredo de um filme de ficção científica, mas a história é outra. As instalações pertencem à Valeo, fabricante francesa de autopeças com valor de mercado de 12 bilhões de euros.

Instalar em localidade remota uma unidade fabril com mão de obra tão sofisticada pode parecer um contrassenso. Não é. A pouco mais de duas horas de carro da capital, Dublin, e muito próxima da Universidade de Galway, Tuam oferece moradia a preços baixos, clima agradável, escolas particulares para famílias jovens e altíssima qualidade de vida. Tudo isso tem seduzido profissionais altamente especializados e de várias partes do mundo.

Longe dali, mas com “filosofia de vida” bastante semelhante, uma das fábricas da Turbomeca – líder francesa e mundial no desenvolvimento e produção de turbinas para helicópteros – fica na pequena e simpática Bordes, nos Pireneus, na fronteira da França com a Espanha. No mês passado, a empresa oferecia 64 empregos qualificados – isso, numa cidade que conta com pouco mais de 2 mil e 500 habitantes. Comparados aos habitantes de Bordes, os engenheiros da Valeo parecem viver numa metrópole.

Na próxima visita à Irlanda, quem sabe, passo lá em Tuam.

 

(Foto da capa por Andreas F. Borchert, CC BY-SA 3.0 de https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8464135)

Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.