Não sei quanto a você, seus pais ou avós, mas os norte-americanos com mais de 65 anos estão utilizando smartphones para receberem notícias. Cada vez mais, e não é pelas redes sociais. Ao contrário. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, entre os meses de março de 2016 e 2017 cerca de dois terços dos adultos dos Estados Unidos passaram a se atualizar por meio de um dispositivo móvel: 67% da amostra, o que representa um aumento de 24 pontos percentuais em relação à pesquisa realizada no ano anterior e quase três vezes mais do que o resultado (22%) apurado em 2013.

Na amostra que reúne todas as faixas etárias a partir de 50 anos, são mais de oito em dez norte-americanos que agora recebem notícias em celulares e tablets, ou 85%, contra os 72% da pesquisa realizada um ano atrás. As explicações: primeiro, porque as faixas etárias inferiores (entre 18-29 anos e 30-49 anos) já tinham, e têm, pouco espaço para crescer, com algo próximo a 95%. Depois, há a questão partidária. A pesquisa revelou que os democratas com mais de 50 anos estão (muito) mais atentos à gestão de Donald Trump e buscam notícias não só com mais imediatismo, mas de fontes de reconhecida credibilidade. O que exclui Facebook, WhatsApp e cia.

Não por acaso, nos últimos meses alguns dos maiores veículos da Grande Mídia dos EUA conseguiram expandir consideravelmente a sua base de leitores. É o caso do The New York Times. Depois de posicionar-se como “defensor da verdade” com uma ampla campanha publicitária, que estreou durante a transmissão do Oscar deste ano, o jornalão conquistou mais de 300 mil novos assinantes digitais – na grande maioria, democratas, também conhecidos como “cães de guarda” – no primeiro trimestre de 2017.

De volta à pesquisa. Embora mais e mais norte-americanos acima de 50 anos tenham passado a receber notícias através de dispositivos móveis, eles ainda preferem se atualizar diante da tela de um computador. Para aquela faixa acima de 65 anos, apenas 44% elegeram o celular como canal preferencial – contra, por exemplo, os 77% da amostra entre 18 a 29 anos. Por aqui, numa rápida enquete doméstica, o hábito de se atualizar via smartphone não me pareceu ter sido plenamente incorporado, pelo menos quando se tratam de usuários acima de 65 anos. Somos cães de guarda mais mansos, talvez.


Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.