Foi quase uma experiência de “binge watching”. No fim de semana passado assisti à quinta temporada completa da série “House of Cards”, na Netflix: de pelo menos uns oito ou nove episódios (dos 13 desta “season”, com média de 50 minutos cada) fiz o streaming depois das 22 horas. Insônia? Nada. Vontade de chegar à última fala da última cena do último episódio. E depois? Veio a vontade de começar outra série – já que, até onde sabe este dublê de blogueiro e crítico de cinema, a sexta temporada ainda não está garantida.

Eu apostaria que está. A julgar pelas declarações mais recentes de Reed Hastings, presidente executivo da Netflix, tornei-me, sem saber, o típico cliente da maior empresa de serviços de streaming de vídeos no mundo. “Mais visualizações, menos horas de sono”, disse ele a analistas, tentando explicar como pretende manter a liderança do mercado, de acordo com o Financial Times.

O desafio é grande. Para começar, são US$ 6 bilhões de investimentos em novos conteúdos. Só neste ano. Paralelamente ao lançamento de megaproduções, comparáveis aos blockbusters hollywoodianos, Hastings propõe definir, através de algoritmos sofisticados, as melhores recomendações para cada um de seus assinantes. “Esperamos um dia sermos tão bons em fazer sugestões que o usuário, ao acessar a Netflix, vai saber qual é a série de TV ou o filme perfeito para o seu estado de ânimo”.

Será isso mesmo o que o assinante deseja? O algoritmo típico se orienta pelas preferências individuais conhecidas, faz a indicação com base nas escolhas de outras pessoas que têm históricos semelhantes de filmes e séries – e, assim, simplesmente não estimula a experimentação, o acaso. Num mundo onde toda informação é direcionada e tem um sentido, Hastings parece querer relativizar a liberdade de escolha dos usuários. Ah, sobre a quinta temporada de “House of Cards”… Contrariando as recomendações do executivo da Netflix de começar uma nova série, decidi assistir a “Mounsier & Madame Altman” – na tela de cinema. Imperdível.

Ricardo Largman, jornalista formado pela PUC-RJ em 1982, é crítico de cinema, consultor de Comunicação e assessor de Imprensa do Instituto IBMEC.